domingo, 5 de junho de 2011

Conflitos

Poderia começar com alguma citação bonita ou intelectual para situar o que é conflito, seu significado ou uma visão contemporânea filosófica do tema em si. Poderia ser que eu tivesse mais referências e mais conhecimento empírico para descrever o que é e o que não é de cada coisa, em vez de ter que googlear um termo. Poderia ser que não precisasse investigar "conflito"... Mas existiria algo sem conflito? "Existiria som se não houvesse o silêncio?". Esse silencio interno e externo no meu quartinho apertado de Santiago, bagunçado, cheio de roupas, frutas, garrafas, papéis e sapatos jogados, roupas sujas, limpas, pra passar, pra doar, pra comprar por aí... Esse silencia então que me faz colocar pra escutar alguma música de uma pasta de músicas que existe no meu computador, que não sei de onde veio, quem baixou, quando, porque... Mas não me detenho nisso e simplesmente aceito o fato de ter Elis Regina aqui pra escutar, a kilometros de distância. Muitas vezes querendo voltar pra casa, pra minha casa no campo, onde eu plantei meus amigos e discos, meus planos e sonhos, onde eu deixei tudo plantado lá, esperando uma boa chuva que talvez eu tenha vindo buscar por aqui. Mas aqui não chove. Mesmo assim, busco um par de areia, de solo arenoso, grande, antigo, que me ensina, mas que deixa meu muco negro também.

Ontem fui ver minha professora da Unicamp, a Verônica, que estava por aqui, com uma montagem da Boa Companhia em parceria com a PUC daqui, La Fallecida, Nelson Rodrigues, num portunhol linguagem híbrida de teatro anos 50 com novela, muita música e canto que até sufocam a encenação realista absurdamente assumida atualmente... Enfim, deu muito sono, mas foi bom ver amigos brasileiros, ver gente que mesmo pra mim nunca foi tão próxima, de repente se torna super próxima e íntima por uma questão de comunhão, de pertencer a algo em comum.
Agora peça boa mesmo foi a que eu vi de um pessoal argentino que se apresentou na minha faculdade. INCRÍVEL. Dramaturgia super fresca, contemporânea, sem grandes pretensões e muito jogo, dinamismo, reiterações, repeticões fragmentadas e revelar e desvelar de segredos da trama de modo super interessante, instigante mesmo. Fiz um workshop com eles no dia seguinte, que em prática não foi muito desenvolvido, pelo tempo e pela profundidade e total desconhecimento e aproximação da gente com esse tipo de linguagem: realismo estranhado! Adorei! Misturar Stanislavsky com Brecht, quem diria... A peça se chama: EGO: cuatro actores juegan o swimming-pool, da dramaturga Candelaria Sabagh... Tem até um manifesto na obra:
"PRIMEIR MANIFIESTO del TEATRO PARADOJA. Meta del Manifiesto: su proprio fracaso. Si el manifiesto fracasa, tiene éxito (porque pretendía fracasar), pero al tener éxito en su meta que es el fracaso, fracasa; porque su meta es el fracaso y no el éxito. Es decir...."
E assim vai ad infinitum!

Bom, chega de falar de outras coisas! Vou falar mais de mim, pra isso vou colocar aqui um texto que escrevi esses dias, depois dos conflitos que já estão se tornando cotidianos, no ambiente teatral e no ambiente maluco e indeciso do meu coração:


COMER: MINHA AUTO ANTROPOFAGIA
Comer o teatro. Comer as palavras, o texto. Deglutir a ação. Digerir o movimento. Mastigar e engolir o outro. Absorver-me do que tem o mundo. Colocar para dentro. Ingerir para gerar. RECEITA PARA SE FAZER UMA BOA ATRIZ: viaje. Fique um tempo longe dos seus pais. Sinta-se perdida, fora de contexto. Experimente a IN comunicação. OUT OF LINE. Coma mal, coma muito. Bote pra dentro tudo o que vê pela frente: planos, amigos, dicionários, agendas, canetas, sanduiches, abacate, sanduíches de abacate, traições, festas, álcool, migalhas, café, fumaça de cigarro, fotos, mapas turísticos, passeios por não sei onde estou. Para resumir, deixe-se levar. Deixe-se ficar, padecer a ação do meio ambiente: chuva, pedradas, neblina, frio. Deixe-se apaixonar por tudo e todos. Deixe-se confundir a si mesma com o outro, com outra nacionalidade. Perca seus documentos, arranje outros de outro país. Fale em outro idioma dia e noite. Comece a pensar em outro idioma. Faça sexo em outro idioma. Queira mudar de profissão, de cara, de corpo. Queira nascer de novo. Queira voltar, queira fugir, queira mais que tudo ficar. Desaprenda a falar em sua língua materna. Confunda a gramática. Enrole as preposições. Sinta-se sozinha como nunca em sua vida. Sinta-se em evidencia, como em uma televisão de holograma ou sinta-se frente a uma lousa, para ensinar algo que não sabe.  Seja vagabunda descarada, tímida, solitária, amiga de todos. Odeie a todos. Exploda-se, converta-se, busque uma nova religião, reze, chore, ouça e cante uma canção brasileira. Dance uma música brasileira. RE-INVENTE seu país, sua cor, seu sotaque, esteja e não esteja ao mesmo tempo. Desespere-se por dentro, pra ninguém notar. Seja mais clichê do que nunca. Seja romântica e durma com alguém 10 anos mais velho que você. Faça criancices. Esqueça-se de como se atua. Busque o que fazer quando já está fazendo algo. Esconda-se em seu quarto. Fale com as pessoas que você mais confia por uma câmera. Participe do aniversario do seu pai pela internet. Esqueça que tenha pais. PAÍS. Vomite para dentro. Misture tudo: doce, salgado, água, sal e açúcar. Faça-te um chá, uma auto massagem, um auto carinho, um auto compadecimento. Console-te a ti mesma. Faça uma auto deglutição. Antropofagie-se.

Sheila Faermann

Galera, não pensem nada, não pensem que estou mal, que estou bem, simplesmente aceitem a poesia!!!
AMOOOOOO VOCÊS TODOS, TO COM SAUDADESSSSSSSSSSS!!!!
JAJÁ TO DE VOLTA DESSA VIAGEM LOUCA E TAMBÉM MARAVILHOSA HASTA EL CHILE!

2 comentários:

  1. Essa minha amiga é showwwwwwww, nao posso negar rs
    amei a poesia, fui lendo dando risada, e foi passando tudo na minha cabeca de eu fazendo essas coisas rs..gostei mesmo amiga =)
    ja to contando os dias pra sua volta viu, voce faz falta demaaais
    saudadeeeeeeees master
    se cuidaaaa
    te adorooo s2

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